O que é estranho

Não há nada de errado ou estranho em ouvir português frequentemente em
Nova York. É natural também que muitas lojas tenham funcionários brasileiros
para atender melhor os ávidos consumidores da terra. O que acende a luz
vermelha é quando a corretora de Miami avisa que leva os brasileiros aos
restaurantes mais caros que conhece e ouve o espanto deles diante do cardápio:
"barato demais”.



Quem já viveu o tempo da moeda fixa sabe que ao final daqueles quatro
anos tudo estava incrivelmente barato em qualquer país e isso dava à classe
média a ilusão de que tinha ficado rica. A diferença é que as famílias estavam
menos endividadas, porque havia pouca oferta de crédito no Brasil e os juros
eram proibitivos. Outra diferença é que o país não tinha o volume de reservas
que tem hoje e, por isso, naquela época o desequilíbrio na taxa de câmbio virou
uma crise cambial em poucos anos.



Com o tsunami monetário, as boas condições da economia brasileira e o
alto volume de reservas, o país não está perto da crise que houve em 1999
quando o real se desvalorizou drasticamente. Tudo é bem diferente agora. Mas
qualquer viagem renova a mesma impressão de que há algo errado.



São tantos os brasileiros comprando imóveis em Miami que há corretores
especializados. A crise americana derrubou muito os preços dos imóveis e era
natural que isso atraísse investidores de outros países. A discrepância de
preços de imóveis lá e cá é tanta que é inevitável não ouvir pelo menos uma vez
a pergunta sobre se o Brasil está indo para a mesma crise que eles já viveram.
Mesmo diante da resposta de que o nível de endividamento no Brasil é muito
menor, eles sempre respondem que acham que uma bolha está se formando. Como
eles acabaram de ser tragados pelo estouro de uma bolha, melhor ficar atento,
porque eles sabem como elas se formam.



O atendente, numa grande loja, explica que os brasileiros vão sempre lá
e descreve: "Eles chegam em grupo e compram muito." É impossível
passar alguns dias por lá e não ouvir o comentário sobre a invejável capacidade
de consumo dos compatriotas.



Um dos problemas dessa impressão, de que o mundo ficou mais acessível
para nós, é que o inverso também é verdadeiro, ou seja, o Brasil parece caro
demais para o visitante. Inacessível. Os números agregados da balança de
transações correntes mostram isso: a cada dia gastamos mais lá fora e atraímos
menos turistas dispostos a gastar aqui. E justamente agora estamos começando a
série de eventos internacionais. Quem vier na Rio+20 já começará a avisar a
todos sobre os preços exorbitantes de tudo no país.



A sensação de prosperidade que o brasileiro sente é em parte verdadeira.
O país está bem, a renda tem aumentado, o emprego permanece alto. Mas em parte
é fruto da ilusão monetária que se tem quando a moeda está supervalorizada.
Desta vez, a valorização excessiva não é decreto governamental, como foi de
1994 a 1999, mas causada por fatores externos. O resultado, no entanto é o
mesmo. Compare-se qualquer produto e vale muito mais a pena comprá-lo fora. Na
fila para o avião de volta ouvi de novo a história dos pais que foram aos
Estados Unidos fazer o enxoval do bebê. Há mais variedade, qualidade, e menor
preço. E de gorjeta o casal ainda viaja.



O que agrava tudo é o fato de que não existe no Brasil uma discussão
séria sobre como enfrentar o problema da falta de competitividade da indústria
brasileira, ou como elevar a taxa de poupança, ou como alavancar investimentos.
Os empresários vão a Brasília pedir ajuda. E será preparado mais um pacote
emergencial, cheio de medidas que não durarão uma temporada. Ninguém discute
seriamente a natureza dos desequilíbrios que a economia brasileira demonstra
ter nesse momento.



Quando o dólar sobe um pouco, há uma sensação geral de alívio, mas a
desvalorização do real só atenua o problema, não o resolve. Não há uma
estratégia de longo prazo na economia. Cada vez que o dólar cai um pouco, o
ministro da Fazenda avisa que tem um arsenal de medidas e que vai usá-lo. Eleva
um IOF, cria uma barreira contra o produto chinês, decreta uma barreira à
entrada excessiva de dólar e repete a garantia que não deixará o real se
valorizar mais.



A valorização do real da segunda metade dos anos 1990 foi parte da
estratégia usada para vencer a hiperinflação. O câmbio fixo teve um fim
tumultuado, mas deixou como herança a inflação de patamares civilizados que
temos hoje. Mas, desta vez, o que restará?



Será um bom momento se o Brasil usar o dólar baixo para modernizar seu
parque industrial, baratear investimentos, atualizar a infraestrutura de
tecnologia de informação, e ganhar tempo para a estratégia mais permanente de
desenvolvimento.



O atraso brasileiro se vê logo no primeiro momento da volta. Na minha
viagem de oito dias, pousei em três aeroportos americanos. Em todos, a bagagem
chegou rapidamente. Em um deles, São Francisco, já estava fora da esteira
esperando por mim. No Rio, além de ter que pegar um ônibus para chegar ao
terminal, esperei exatamente 31 minutos pela bagagem.



Fonte: GloboBlogs